As Conseqüências Psicológicas da Traição no Casamento, Envolvendo uma
Terceira Pessoa. (Gelly Nicandrea
Marques Pereira e Thatiana Bisi Oliveira)
1- A ESCOLHA DO CÔNJUGE
Apaixonar-se
tem a ver com a criação de sentimentos incipientes, arrebatadores de engolfamento
em um mundo seguro e íntimo, em que dois são como uma companhia perfeita,e em
que existe uma perfeita nutrição. O certo é que o estado de paixão tira aquela
pessoa apaixonada do mundo e da realidade. Segundo (Pittman, 1994),
internamente, apaixonar-se pode parecer uma regressão ao útero ou uma união com
o infinito, mas, externamente, apaixonar-se é comparado a uma insanidade
temporária.
Amar
tem pouco a ver com apaixonar-se, e mais a ver com o romance, que é uma forma
de sofrimento exótico e narcisista, em que a qualidade especial de um
relacionamento amoroso é distorcida em uma obsessão com sofrimento e
sacrifícios para manter as coisas intensas o suficiente para fazer o mundo e a
realidade se desvanescerem. O fenômeno da paixão tende a ocorrer em pontos de transição
nas vidas das pessoas, e pode servir ao
propósito
de evitar uma mudança e adaptação a novas circunstâncias ou a um novo estágio
de desenvolvimento.
Diferentemente
de amar e ser amado, que nos dão a segurança de encontrar satisfação e alegria
na vida, apaixonar -se pode ser um perigoso episódio de tortura, aventura e exercício
emocional. Não é uma doença que diagnosticamos, nem nós costumamos trancar as
pessoas ou lhes dar remédios para isso. Segundo Pittman (1994, p. 26) “O estado
de paixão, é uma forma sagrada de insanidade, tão sagrada quanto às vacas da
Índia”.
Paixão
e romance têm pouco a ver com amor, que significa trazer prazer, conforto, paz
e segurança um para o outro, ao invés de dor, excitação e ansiedade. No
entanto, em nossa sociedade, essas paixões intensas, desorientadoras serviram,
nas últimas décadas, como a base para o casamento. Apesar dos riscos de deixar
que algo trivial e fugaz dite algo permanente e vital, pode ser importante
deixar que o romance seja o ponto de partida do casamento.
Partindo
desse ponto, o ser humano busca o outro para poder formar um casal, seguindo
suas necessidades internas de complementaridades.
A
escolha do parceiro expressa um jogo extremamente sutil e sofisticado, em que a
atenção culturalmente induzida para receber elementos específicos de interesse
no aspecto e no comportamento de determinada pessoa é acompanhada de uma “desatenção”.
Essa escolha baseia-se então num joga de “vazios” e “cheios” que permitem,
justamente por meio de sua interação dinâmica, que o relacionamento prossiga e
evolua, ou que, pelo contrário, seja interrompido. Neste último caso, às vezes
é justamente o trauma ligado a essa condição que se torna o começo
indispensável para uma contínua busca de reconstrução do relacionamento interrompido
sob forma de aspiração a alcançar um suposto “paraíso perdido”, identificado no
“infeliz” vínculo realizado.
É
no momento da escolha que a pessoa precisa assumir a responsabilidade por suas
ações e verificar, na realidade aquilo que até então gostaria de se dar ao luxo
de viver.
Achar
uma solução de compromisso que atenda, ao mesmo tempo, as exigências ligadas ao
mandato familiar e as exigências que se contrapõem a esse mandato, na fantasia
ou na realidade, implicam no produto a qual seria a condensação das tentativas
de respostas ao maior número possível de exigências.
Num
universo povoado com tantas alternativas, o que faz com que as pessoas se
atraiam umas pelas outras? Porque uns se tornam mais atraentes enquanto que
outros mais repulsivos, e o que faz com que isso ocorra? Na verdade, isso
ocorre porque os próprios indivíduos se denunciam, com a mais veemência do que qualquer
discurso, não há como haver enganos em um nível mais profundo, dado que o
contato se estabelece através de mensagens basicamente não verbais. E é por aí
que acontece aquela espécie de química, capaz de atrair e envolver pessoas,
assim começam a estabelecer contratos que definem as principais regras de uma aliança.
Para Anton (1998, p.56) “essas relações entre os objetos internos e externos
reais são relevantes,
considerando
-se que a pessoa, ao escolher alguém para compartilhar a sua vida, o faz a
partir de desejos e necessidades tanto conscientes como inconscientes”.
2-
O CASAMENTO
Ainda
hoje, em pleno século XXI, percebe-se que, para muitas pessoas, o que justifica
o casamento é um amor apaixonado, idealizado, absoluto. E o que justifica um
bom número de divórcios e recasamentos é a decepção com as histórias vividas,
associadas ao redespertar da esperança, à procura inebriante de novas ilusões.
A proliferação de relações paralelas, ocultas e proibidas nasce desse desejo
insaciável, representando exatamente a mesma busca, a partir da convicção nem
sempre consciente de que o fantástico não subsiste ao dia-a-dia, não passa por
nenhum teste de realidade.
O
desejo de companhia, de aconchego, de se sentir pert encente a alguém é tão
inerente ao ser humano que, desde que se têm notícias, o homem vive em grupos. Para
(Anton, 1998), o “outro” é um ponto de referência indispensável para a conservação
da percepção lógica e organizada de si mesmo.Um adulto, mesmo sem saber, conserva
a própria unidade e lucidez no confronto com as demais pessoas. A solidão, em
suas formas mais radicais, leva a confusão entre realidade e fantasia. Muitas
relações infelizes não terminam nunca, justamente porque os indivíduos nelas
envolvidos sentem-se incapazes de estabelecer laços mais felizes com outras
pessoas e preferem estar mal-acompanhados, pois esta alternativa pode estar
associada a um insuportável medo da loucura de ficarem sós.
Individualidade
e solidão, no entanto, podem ser experiências altamente gratificantes e
enriquecedoras para aquele que se sente pertencente ao parceiro (a), e cuja
vida tem valor, no pequeno e no grande grupo social onde eles (a) encontram-se
verdadeiramente engajado.
Estar
só pode representar um momento de sossego, de reabastecimento pela intimidade consigo
mesmo, de um mergulho no seu mundo interno. O confronto entre as verdades de cada
um leva a descoberta de uma verdade mais consistente, mais ampla e, inclusive,
mais profunda. A convivência entre as pessoas conduz, portanto, a descoberta e
ao desenvolvimento da individualidade, e é condição de saúde mental. (Anton,
1998).
Algumas
pessoas encontram dificuldades em conciliar desejos opostos, como o da
liberdade com o comportamento e o da individualidade com o vínculo. Segundo
(Anton, 1998), embora comprometidas, em nível pessoal e profissional, preferem
diluir o elo, dirigindo suas energias afetivas mais para grupos e tarefas, do que
para alguém especial, eleito para um convívio mais estreito. Outras, mesmo
optando por uma relação de casamento, procuram manter o controle e distância,
através de subterfúgio que, descobrem, e isso geralmente ocorre quando o
desenvolvimento está marcado por desencontros e pela inexistência de respostas
felizes aos mais íntimos dos anseios. Significa que, às vezes, as feridas são
tão profundas que as pessoas não querem mais correr risco e se protegem
definitivamente.
Defendem-se
das relações difíceis porque são difíceis; das superficiais porque nada
representam (embora esta possa ser a preferida, justamente por isso), das
intensas e profundas, porque o medo de se expor e de criar laços torna-se
intolerável, já que as primeiras relações fracassaram.
Em
nossa cultura, uma aura de romantismo envolve o casamento, pintando-o como
instrumento de libertação e de felicidade; o outro se torna responsável pela
realização dos sonhos de seu parceiro, e tais papéis, em alguns casos, devem
coexistir, mesmo que incompatíveis entre si. Essa leveza idealizada torna -se,
na prática, uma bola de chumbo, atada aos pés de ambos os prisioneiros,
condenados a carregar pesados fardos que jamais
poderão
satisfazer a qualquer uma das partes envolvidas. Casais que se acusam
mutuamente por não corresponderem à ilusão até então cultivadas. Casamentos se
desfazem em um número cada vez maior, e tendo que ser conservado por um espaço
de tempo cada vez mais breve. Alguns autores consideram que o desespero das
pessoas para o casamento deve-se as promessas de mais ampla felicidade que o
acompanha, expressa pelo clássico final de contos de fadas “casaram-se e foram
felizes para sempre”.
A
sociedade responsabiliza a incompatibilidade entre os hábitos e interesses
conscientes de ambos os parceiros pelo fracasso conjugal. Embora as opiniões se
justifiquem, elas dizem respeito a uma camada superficial de uma realidade bem
mais profunda e complexa, pois tanto os “finais felizes” estimulam ilusões acerca
do casamento, se quando são sinais e produtos de pensamento mágico. O
despreparo emocional tem muito mais a ver com a evolução global da
personalidade do que com esses esquemas pré-fabricados, uma vez que a
experiência anterior, responsável pelo comportamento do ego, é que vai
determinar a capacidade de reconhecimento e de adaptação à realidade, ou o
predomínio da ilusão, em detrimento real. Mais decisivo do que a
incompatibilidade do casal é a preponderância do conflito entre os objetivos
conscientes e inconscientes de ambos, acerca de si mesmos como indivíduos e
acerca da relação conjugal.
3-
Pontos Críticos do Casamento:
No
curso de uma vida e de um casamento, existem pontos críticos, períodos de
transição e crise, em que as coisas mudam. Existe uma instabilidade nesses
pontos críticos, e vários tipos de problemas podem surgir. É nesses momentos
que um casamento, e até antes dele, um relacionamento, corre um grande risco de
infidelidade.
Os
casamentos geralmente começam bem, e o casal parece que estará nele para
sempre. Os defeitos que eram aparentes para todos os amigos e parentes, não
evoluíram para nada mais sério. Então, de alguma maneira,
ele
deixa de funcionar. O casamento torna-se mais distante, ou mais cheio de
conflitos. Nada muito dramático aconteceu, o casamento simplesmente não está
funcionando. Tipicamente, um dos parceiros suspeita que o outro
está
tendo um caso, e nesse ponto, a suspeita muitas vezes é correta. Mas, a crise,
embora seja muito diferente e infinitamente mais fácil de resolver sem o caso,
ainda é uma crise e com a instabilidade dos pontos críticos vários problemas
podem surgir, como “apaixonar-se”, “pânico pré-nupcial”, “diminuição do sexo”, “ciúme”
e o “fim do romance”.
Apaixonar-se:
Existe
uma crise em todos os relacionamentos de namoro, quando um dos parceiros começa
a sentir um vínculo primeiro. Se o outro ainda não começou a ter idéias
românticas, o relacionamento pode começar a ficar desorientador e bastante
pegajoso. Alguém precisa reconhecer primeiro que aquilo que está sendo sentido
pode ser “amor”. Dizer “eu te amo” é assustador, não dizer também é assustador,
e não ouvir de volta é motivo para suicídio (Pittman, 1994). As pessoas
inseguras podem se separa logo em um relacionamento quando sentem que sua
necessidade de amor não será satisfeita. Elas não estão preocupadas com
qualidade de seu próprio amor ou
com
as necessidades da out ra pessoa, mas apenas se o outro lhes dará o amor que
elas temiam jamais conseguir.
Pittman,
1994, acredita que as pessoas inseguras que estão namorando podem ficar malucas
e deixar todos em volta delas igualmente malucos, enquanto esperam a resposta
amor osa da qual depende sua vida.
Qualquer
pessoa sadia que receba uma baforada desse desespero provavelmente irá sair
correndo. A maioria das pessoas consegue crescer e deixam de entrar em pânico
sobre a questão de ser amada, mas outras sentem a mesma insegurança todos os
dias e precisam de um reasseguramento regular de que são verdadeiramente
amadas, independentemente do que tenham ou não tenham feito.
...
O
presente estudo mostra que a crise vivenciada pelo casal reflete em um forte
sinal do malestar relacional que muitos vivenciam, permitindo assim uma maior
reflexão sobre as profundas mudanças dos papéis sexuais e familiares
evidenciados nos dias de hoje. Apesar de todos esses processos, existe uma
problemática que perdura entre os casais. Trata-se da infidelidade conjugal. Provavelmente,
não existe nenhum casal que não tenha vivenciado crises, e poucos que não
tenham entrado em contato com o trauma emocional, devastador que se segue à des
coberta, ou a revelação de uma relação extra-conjugal.
A
infidelidade não se resume somente ao ato sexual, mas na desonestidade e no
segredo do ato.Segundo Pittman (1994, p. 4) “a infidelidade é uma quebra de
confiança, a traição de um relacionamento, o rompimento de um acordo”.
Confirmando assim as respostas emitidas nas entrevistas, quando P1 relata que “a
pessoa com quem vivia tornou-se desacreditada, o relacionamento ficou abalado
pela desonestidade... ele traiu a minha confiança”. Este relato aparece em
todas as outras entrevistas realizadas, mostrando que a infidelidade possui um
grande poder desestruturador na relação.
De
acordo com o referencial teórico e com o que foi verificado nas entrevistas,
que a infidelidade não é a pior coisa que um parceiro faça ao outro, mas pode
ser a mais perturbadora e desorientadora situação ocorrida, não somente pela
relação sexual e sim pelos segredos e mentiras relacionados. Conforme Pittman
(1994, p. 6)
“uma mentira pode ser
uma traição mais direta do que manter um segredo relevante, mas as duas coisas
acabam sendo a mesma coisa”.
Os
problemas inerentes à infidelidade, geralmente giram em torno da culpa e
ciúmes. Se os mesmos forem superados, a traição deixará de ser um problema. Mas
a infidelidade, ou melhor, a culpa e o ciúme raramente são superados durante o
período de uma vida. Tanto que em todos os relatos, a mesma, não é admitida além
de trazer sérias conseqüências, que iam desde a falta de confiança, mágoa, dor,
e até a separação.
Conforme
o referencial teórico à crença na fidelidade conjugal e no casamento monógamo
ainda servem de base para as fantasias e ideais românticos das pessoas.
Apesar
do ser humano ser falho, acredita-se que a infidelidade não deve ser tolerada.
Pittman (1994), ressalta que apesar da fidelidade ser o ideal almejado, não se
acredita que ela seja atingível e a mesma acaba sendo tratada mais como uma
fantasia do que como um ideal. Sobre a mesma questão P3 afirma que ao
experienciar uma traição em seu relacionamento conjugal, passou por um processo
de amadurecimento, além de uma enorme precaução em relação a qualquer tipo de envolvimento
amoroso, confirmando assim, o que foi exposto no referencial teórico
anteriormente.
Apesar
da infidelidade ser tão comum a ponto de já não se constitui um desvio e sim
uma problemática existente entre os casais, a mesma continua a surpreender
aqueles que a experienciam. Em nossa sociedade muitas paixões intensas e
romances serviram nas ultimas décadas como base para o casamento. Pois é no
momento da escolha que a pessoa precisa assumir a responsabilidade por suas
ações.
Enquanto
que outras, nunca sentiram muito romance em seu casamento. Existem pessoas que
nunca sentiram muito romance em seu casamento e jamais pensam que deveriam passar
por um período de desori entação romântica. Mas para muitos casais a perda do
romantismo faz com que a relação se torne desorientadora, conforme o relato de
P3 que diz “ao longo do tempo foram surgindo às diferenças (...) na época nem
nos dávamos conta disso’’. Nota-se uma contrap osição no que foi explicitado no
referencial teórico, quando Pittman (1994, p.34) diz “algumas vezes o
relacionamento é suficientemente bom para que ambos reconheçam o fim do romance
e o começo do casamento”. Mostrando a necessidade de aprender a lidar com
adversidades que surgirão na relação, e a busca da compreensão de que as
diferenças e divergências sempre existiram, pois a relação constitui-se de duas
pessoas.
Sugere-se
que as pesquisas futuras possam investigar como as mudanças de papéis sociais
vivenciados pela família hoje, tem contribuído para o grande índice de
envolvimento com uma outra pessoa na relação conjugal e conseqüentemente ao
divórcio.